Por Vlader Nobre
SINAL FECHADO
Vlader Nobre
Só assim. Só assim eles param. De outro modo, nem me perceberiam. Só assim. Tenho dois minutos para existir. Dois minutos! É foda! Pronto. Preciso jogar os malabares. São três. Aprendi com um doido daqui mesmo. Só não aprendi a sorrir. Isso não. Nem sei o que é. Rir de quê? Dessa merda de vida? Só se for mesmo. Porra nenhuma. Profissão: incapaz de ser. Endereço: até me deixarem ficar. Nunca mudou. Acho que isso vem de ancestralidades. Dizem que é carma, vidas passadas. Quer dizer que eu é que tomo no cu por merda que os outros fizeram em vidas passadas? Porra nenhuma. Sou pobre de tudo: de alma e de fé. A carência me impede de desejar. Só assim. Só assim eles me veem. Jogo meus malabares. Sou muito bom nisso. Pelo menos nisso. Quem sabe um dia eu tente fazer isso com fogo. Já que eu não chamo a atenção dos bacanas em seus carrões, o fogo me daria visibilidade. É uma boa. Mas, e se eu me queimar? Já sou fodido mesmo. Mais uma cicatriz ilustraria uma coleção de fracassos. Porra! Ninguém abriu o vidro fumê dessa vez. Porra! Carrão do caralho para ostentar riqueza e não tem uma moeda para me dar? E ainda baixam a cabeça, fingindo que estão mexendo no som. Porra! Olha para mim! Estou aqui, playboy de merda. Soca essa buzina no rabo, velho! Oxe! A rua é pública. Vou sair não! Se pelo menos baixassem o vidro. Não suporto olhar meu reflexo no carro do cara. Mas o fumê é para isso mesmo. Para não me olhar. Para não incomodar. Eu tenho que aprender a sorrir. Acho que as coisas iriam melhorar. Mas esse dente podre na frente… vou sorrir não. Ninguém sorriu para mim até agora. Rir para quê? Coisa de leso. Mas essa cara de fome também está uma merda. Eu tinha que fazer uma outra cara. Quando o farol fechar de novo, eu vou investir mais no marketing. Tenho que esconder o dente podre. É logo o da frente, velho. Vi na televisão que o sorriso abre portas. Acho que é por isso que nada se abre para mim. Só esse farol. Pronto, fechou! Vou fazer uma pose de auto-confiança. Ninguém olhou. Isso é uma merda! Pronto, fechou! Vou fazer uma cara de gente boa. Ninguém olhou. Só pode ser a falta do sorriso! Qual é a cara que eles querem ver em uma porra de um farol no centro da cidade? Acho que eles ficam com ódio do sinal vermelho. Coisa de gente rica. Devem ficar putos. Porque, quando o farol fecha, eu apareço. Eles devem ficar putos. Por isso o fumê. E se não tivesse farol nessa esquina? Não quero nem pensar nisso. Tu é doido, velho! O farol é como um portal de visibilidade. Ele me leva para outra dimensão: a da existência instantânea. Sabe um truque de mágica? Pois é. Com o verde, eu desapareço. O vermelho é o meu momento. Tipo um tapete vermelho do Oscar. Sei nem que porra é isso. Acho que vi isso na televisão daquela lanchonete que eu vou quando junto um trocado. Quatro reais num hambúrguer, porra! E o segurança ainda fica me secando. Todo mundo pensa que eu quero roubar. Às vezes, penso que eu é que fui roubado. Mas vou dizer isso para quem? Ninguém pára para me ver nem me ouvir. Mas, se eu pudesse, eu dizia um monte de coisa. Acho que o mercado de pedinte já está saturado. Muitos fazem o que eu faço. São muitos. Iguais a mim em nada ser. São muitos. Tinha que ter mais faróis. Podiam fazer demorar mais. Tipo uns dez minutos. Aí eu tinha mais tempo para me apresentar, falar da minha vida. Porra nenhuma! O cara não baixa o fumê por nada, velho! É tudo escroto. Às vezes dá vontade de subir no capô. Quero ver não me verem! Às vezes, penso em roubar. Pode ser até um dente. Aí eu ia rir. Será que é crime roubar um dente? Deve ser. Tudo tem dono. Só eu não tenho nada. Só eu não. Somos muitos, mas é tudo uma multiplicação de zero. Acho que a gente só tem esse farol vermelho. Já tentei ficar na calçada da prefeitura. O guarda mandou eu sair. Já tentei ficar na calçada da igreja matriz. O padre me mandou sair. Já tentei ficar na calçada do fórum. O moço de paletó bacana me mandou sair. Não era para eu ter saído não. Mas eu saí. Acho que não era para eu ter saído de lugar nenhum. E se os malabares fossem de verdade? Acho que as garrafas com o pedaço de cabo de vassoura estão atrapalhando meu negócio. E se eu fosse de verdade? Acho que esse dente podre está me atrapalhando. Eu mesmo não baixaria o fumê para um cara com um dente podre desses. Às vezes, acho que esse dente podre é a causa de toda minha desgraça. Como eram os dentes de Jesus? Com certeza, não eram podres como os meus. Às vezes, penso que eu também fui crucificado. Só não sei onde estão os pregos nem a cruz. Mas sei que dói. Fico viajando na ideia de um dia um bacana baixar o fumê e me dar uns cem reais. Já pensou? Comprava uma sandália (essa já está abrindo o calcanhar). Comprava um boné, com essas frases de gringo. Gringo deve viver bem. Comprava aquele kit lá da lanchonete: sanduíche, refrigerante e batata frita. Comprara mesmo. Porra nenhuma! Comprava um dente. É mesmo, um dente. Aí eu poderia sorrir. Aí os carros baixariam o fumê. Aí todo mundo ia olhar para mim. Até quando estivesse verde. Já pensou? Porra nenhuma! Às vezes, acho que essas viagens minhas são por conta da fome. Fome faz cada coisa. Come todos os desejos da gente. Come a família. Come a casa. Come os móveis. Come as roupas. Come o sono. Come até o dente. É mesmo. Quem está acabando com meus dentes deve ser a fome. É mesmo. Antes de eu ter dentre podre, eu já tinha fome. É mesmo. Eu sempre tive fome. Eu Sempre tive. Sempre tive. Sempre. Essa fome vem de meus antepassados também? Deve ser. De outras vidas também? Deve ter sido. Quem foi o primeiro homem a passar fome no mundo? Sei lá, mas deve ser um parente meu. Só pode. Mas antigamente não tinha farol vermelho. Como é que ele conseguia chamar a atenção? Sei lá. Às vezes, acho que todo mundo é pedinte. Não é não? Eu peço aqui no farol. Mas eu vejo os bacanas indo pedir no banco. Eu vejo os políticos pedindo voto. Eu vejo o povo na igreja pedindo perdão. É mesmo. Todo mundo é pedinte. Então é tudo parente meu. Mas por que eu vejo todos eles e eles não me veem? Por que eles têm carro e eu não? Por que eles têm dentes e eu tenho um dente podre? Às vezes, penso que tudo isso deveria ser meu. Deve ser a fome. Deve ser o dente podre. Deve ser porque eu não sei sorrir. Deve ser assim mesmo. Sinal fechado. Vermelho. Boca fechada por causa da porra do dente. Amarelo. Fumê fechado por minha causa. Corpo fechado para a vida. Verde. Esperança é o caralho!

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